Escolhas e consequências. || ENTREVISTA A ANA FILIPA (Hey, Pêssegos) #2

16:47

Olá a todos(as), depois de um mês sem publicar nenhuma das entrevistas, aqui vai o segundo episódio da série "Não é apenas conversa é PARTILHA !!". 
Esta foi uma das conversas mais profundas que alguma vez tive e foi com a maravilhosa Ana Filipa do blog "Hey, Pêssegos!", tirou Design Gráfico mas neste momento trabalha como assistente operacional num hospital e pretende ainda tirar a licenciatura em enfermagem.




Mia : Olá Filipa, já percebi que é assim que queres que te chamem, sê bem-vinda aqui ao blog, fico muito contente por te entrevistar. 

Filipa : Contente fico eu por ter esta oportunidade. Então, o que gostavas de perguntar? Estou super curiosa !

Mia : Eu tive que fazer o trabalho de casa, vi várias publicações do teu blog, passei nas tuas redes sociais, para estar a par de tudo e à um assunto que tu falas com bastante frequência mas que também já percebi que ás vezes é melhor não ser falado. Que é o trabalho, o que fazes, o que queres fazer, as tuas escolhas. Eu li um dos posts que era sobre uma Filipa que não estava a conseguir "compactuar" com certo tipo de coisas, com o que via, com o que não concordava ... e gostava de saber como é que é estar num sítio onde partimos do início que não iremos estar confortáveis dado ao que já se passa, como é que é passar tantas horas a fazer algo que depois não te chega a completar por causa das razões que falas no post. 

Filipa : Bem verdade, existem coisas que por vezes é melhor não falar e se eventualmente o fizer tenho que pensar e moderar bem as palavras usadas para não levantar falsos testemunhos nem equivocar ninguém. Tudo depende da maneira como tu olhar o que estás a fazer e vês que o que fazes está a ser positivo. Ou seja, eu podia não gostar/concordar com coisas que estava a ver mas isso não me iria impedir de tratar (dentro dos estatutos da minha "profissão") aquele doente. Eles, são aqueles que não devem sofrer com ideologias. 

Mia : Ou seja, muitas vezes hoje em dia, cada vez se pede menos a opinião do trabalhador. Corrige-me se estou errada. É certo que os doentes não podem pagar por as más escolhas feitas "de cima". Agora, existe trabalhadores e trabalhadores, na minha opinião, todos eles se apercebem das más escolhas, mas depois existem aqueles que fazem alguma coisa, protestam ... e depois existem aqueles que têm que se calar e fazer o que lhes mandam porque não podem se arriscar a ficar sem emprego, mas pior são os que vêm que existe ali más escolhas mas que não dizem nada e compactuam de certa maneira, muitas vezes para dar a dita "graxa". Apercebes-te mais disso hoje em dia? Que a opinião do trabalhador é cada vez menos ouvida? Que à cada vez mais gente a dar graxa? 

Filipa : Ah, essa pergunta tem muito que se lhe diga e é um bocado complicado de responder de maneira a que todos entendam. Quando se trabalha em equipa é suposto existir um prol de proporcionar algo melhor a alguém. Certo? Esta é a base. Independentemente de serem médicos, assistentes operacionais, enfermeiros, técnicos ... tudo está ali para ajudar o doente. 
Quando uma informação é passada de que algo não está bem, existem os que fazem algo e tentam entender o que podem fazer. E existem outros que bem, fazem porque sim e existem outros que mandam fazer. Os que mandam fazer podem até enfrentar dois tipos de pessoas: as que se recusam porque não lhes compete fazer algo acima das suas funções (são vidas, não são computadores) e existem os que fazem. Se é por graxa, se é por se sentirem bem a fazer algo "mais" ... Não sei, eu como não consigo entender este lado não posso comentar. 

Mia : Mas a verdade é que cada vez menos se pede a opinião ao trabalhador. Seja ele médico, enfermeiro ... já lá vai o tempo em que essa opinião valia para algumas coisas serem mudadas. 

Filipa : A quem é que te referes como trabalhador? Ali todos são trabalhadores. Acho que tens uma opinião errada, porque entre profissionais de saúde uma opinião fundamentada é ouvida. 
Agora, se falarmos de nós trabalhadores (profissionais de saúde) não somos ouvidos em termos de condições, melhoramentos, vencimentos. Aí concordo 100% contigo. Porque não somos ouvidos e trabalhamos em condições que muitas pessoas não têm noção. 

Mia : Essa não é a questão, eu sei que todos ali são trabalhadores, eu falo das pessoas que antes gostavam de receber opinião em relação a como dizes melhoramentos, vencimentos ... e agora já não são ouvidos. Calculo que seja frustrante, porque deveriam se sentir satisfeitos com o que estão a fazer, aliás todos gostamos de ser ouvidos certo? 

Filipa : É frustrante trabalhar nas condições que trabalhamos, é frustrante trabalhar as horas que trabalhamos sem receber a mais por isso. E é frustrante ver que as pessoas só entendem isso quando passam por um serviço mais de X tempo e entendem efetivamente a exaustão que é. São feitas greves para tentar melhorar as nossas condições que acabam por ser as condições dos doentes. Só que grande parte das pessoas vê isso como "greve para não trabalhar" e até aí estão erradas. Foram feitos melhoramentos em tempos, mas isto tudo depende daquilo que o nosso governo "acha bem".
E tentar mostrar-lhes que são precisas mudanças, é complicado. Portanto, nesse intuito direi que sim é frustrante não ser ouvido.

Mia : Porque é que achas que é tão difícil o governo ouvir-vos neste caso? Vamos supor que mandam uma carta ao governo ... a pergunta é, será que essa carta vai ser lida ou irá diretamente para o caixote do lixo?

Filipa : Eu até acredito que eles ouçam, e que essa dita carta até poderia ser lida. Mas isso não seria assim tão linear porque não podem fazer mudanças desta magnitude de um dia para o outro.

Mia : De todas as condições em que trabalhas e tantos outros trabalham ... o que é que custa mais? É o facto de ás vezes não ser dado o devido valor, também?

Filipa : A que custa mais? É não ter macas para deitar doentes, é ter doentes em corredor, é eles estarem ali e nós não conseguirmos ficar 10 minutos com eles porque temos mais X para ir ajudar. O devido valor, estás a referir-te da parte do doente para connosco, ou da entidade para connosco?

Mia : Nesta pergunta em específico da entidade para convosco.

Filipa : O que custa mais é não ter mesmo condições para nós e para os doentes. Mas também custa ver (e sentir) que nem sempre nos dão valor. 

Mia : E quando alguns desses pacientes acabam por falecer "ainda" nos corredores? A culpa não foi "tua" porque lá está, tentaste fazer o que estava ao teu alcance, tens ali mil e uma pessoas que precisam de ajuda. Mói? Mói passar por aquela maca que à trinta minutos tinhas passado e aquela pessoa estava lá e agora já não? Acho que uma das coisas que eu própria e não só eu, tem curiosidade, é o que vocês sentem? Obviamente que deve ser uma mistura de sentimentos, é frustração ... o que é que passa pela vossa cabeça naquele instante?

Filipa : Aqui não posso falar pelos outros, posso só falar por mim. Custa-me sempre ver alguém a falecer. Mas o que me custa mais é ver quando eles estão conscientes e sabem que vai acontecer... E pior, é quando acabas por ter algum tipo de ligação.
Por mais que nos digam "não podemos criar ligações, temos que ser frios e e não podemos afeiçoar às pessoas"... Epá, é complicado. São pessoas que estão ali. Eu não consigo em alguns casos ficar assim indiferente.

Mia : Já ficaste de dar a notícia aos familiares? O que é que se passa naquele momento? Porque o que se passa nos filmes nós já sabemos,mas é filme, agora é verdade? É similar ou é pior?

Filipa : Nunca fiquei de dar essa noticia porque isso não é qualquer pessoa que a dá. Mas já estive no momento que lhes é dito... E azar do caraças, tinha a dita afeição tanto pelo doente como também pelos familiares que no final acabei por abraçar.

Mia : Como já me tinhas dito tu tiraste design gráfico, de onde é que surgiu a enfermagem que pretendes iniciar este ano a licenciatura? Porque são áreas muito diferentes.




Filipa : Haha, verdade. Já tive um percurso acadêmico muito distinto. Nunca consegui saber ao certo o que gostava, mas gostava de tudo um pouco. Como até me safo super bem com PCs, gosto de recriar... fiquei-me pelo design. Nunca na vida pensei que afinal, sentia-me bem era a ajudar o outro.
Esta coisa do tentar ajudar o próximo surgiu quando uma moça foi atropelada. O meu namorado foi a correr para socorrer e eu mesmo sem saber ao certo o que poderia fazer, acabei por ajudar. No final fiquei com uma sensação esquisita e disse-lhe "queria ter feito mais, mas também não sabia como". E por incentivo dele tirei formação como auxiliar e comecei a trabalhar na prestação de cuidados ao próximo... Com o tempo fui entendendo que eu quero saber mais do que é suposto. Eu quero saber como melhorar a qualidade de vida de uma pessoa e quero ser mais autônoma nesse âmbito. 
Mas isto lá está, é uma das metas deste ano. Se vai acontecer? Não faço ideia.

Mia : Neste momento és resolvida contigo própria? Tanto com o interior e o exterior? É que eu li alguns posts em que tu falas da tua infância em que te diziam "És magra ..."; "Assim estás bem, estás elegante." e depois passaste por toda aquela fase em que começaste a ficar doente e não sabiam do que era ou se sabiam pensavam que era algo viral. 

Filipa : A questão é que eu não comecei a ficar doente, eu toda a minha vida estive doente. Porque toda a minha vida tive reação ao glúten mas ninguém sabia que era isso. diziam sempre que era outra coisa qualquer *risos*. Neste momento estou bem resolvida comigo e opinião dessas pessoas deixou de me importar. Alias pessoas assim nem vale a pena ter por perto. 

Mia : Eu tenho que te confessar uma coisa, eu quando abri o teu blog pela primeira vez, olhei para a foto e pensei "Olha uma adolescente." no bom sentido, quando vejo que tu começas a escrever "hubby","sogro" ... a minha boca quase que caía ao chão e disse em voz alta : " Mas ela já é casada?" não fazia sequer ideia que já te tinhas formado em Design Gráfico. * risos*

Filipa : Hahahhaha (desculpa, ri mesmo!) Já não és a primeira pessoa que me diz isto e ainda bem!. Não sou casada mas moro junto com o meu hubby há 3 anos, vai fazer 4. É normal que não tenhas essa noção porque eu não falo muito sobre mim. Até porque ainda estou aos poucos a mostrar a minha "cara" como autora do Hey, Pêssegos.

Mia : Agora, vamos entrar na parte mais lamechas da coisa, sempre sonhaste com o príncipe encantado ou essa ideia foi se desvanecendo aos poucos?

Filipa : Nunca sonhei em ter um príncipe encantado, nem com casamentos, nem com filhos. Até ele aparecer. Basicamente, foi isto * risos * 

Mia : Então tudo isso agora está em aberto? Por falar em filhos, quantos, e que nomes mais gostas? És uma pessoa mais tradicional ou gostas de arriscar mais? 

Filipa : Temos três gatos que são os nossos filhos de 4 patas. Não tenho nenhuma noção de nomes porque a ideia de ter filhos não faz parte. 





Mia : No meio disto tudo, de teres tirado design gráfico e depois de teres percebido que ajudar o outro é realmente a vocação, ainda tens o blog. Quando é que o blog apareceu na tua vida? Qual foi o dia em que houve o clique, olha eu se calhar também podia falar sobre algumas coisas. 

Filipa : Não, nada disso. O blogue surgiu mais como diário. Era uma maneira de eu guardar tudo o que gostasse num só sítio e mais tarde poderia ler. Mais tarde é que comecei a ver que existiam mais pessoas que gostavam do que eu gostava e então surgiu um espaço aberto para discussão sobre esse tópicos. 

Mia : Fizeste amigas(os) para a vida com o blog? 

Filipa : Fiz amigos sim! Se serão para a vida não sei. Mas serão sempre amigos

Mia : O que é que mais gostas de fazer quando não estás nem no trabalho nem a organizar os teus posts? 

Filipa : Gosto de passear e de conhecer mais sobre Portugal. De ver filmes, series e ler. Também gosto de fazer festinhas em casa.



Mia : O que é que queres fazer com o blog que ainda não fizeste ou não achaste que estava no momento certo para?

Filipa : Eu queria levar o blogue mais além. Queria mostrar mais sobre o que falo e escrever mais. Mas só irei conseguir fazer isso quando me organizar. É complicado trabalhar as horas que trabalho e ainda conseguir publicar algumas vezes por semana. (Geralmente público 3x por semana). Também gostava de voltar a tentar fazer vídeos... mas acho que não é mesmo a minha praia haha 

Mia : Diz-nos lá que tipo de conteúdo trabalhas no blog? Para as pessoas se entusiasmarem e passarem por lá.

Filipa : Oooh eu falo de tanta coisa! Falo sobre a doença celíaca e mostro receitas. Falo sobre situações que acontecem diariamente seja a nível pessoal como profissional. Falo de filmes, series. Mostro as minhas rotinas, o que levo ou faço quando vou fazer noite no hospital. 

Mia : Por fim, peço-te que mandes uma mensagem a todos aqueles que possam estar a ler esta entrevista e espero que tenhas gostado. É uma das primeiras. 

Filipa : Acho que foi a primeira vez que me fizeram efetivamente perguntas sobre mim ou sobre coisas que publiquei. Fizeste muito bem esse teu trabalho de casa Miia. Espero que tenham gostado de ler um bocado mais sobre o que me rodeia e gostado de me conhecer melhor. Beijinhos e abraços.

Mia : Beijinhos minha linda, sê feliz.



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Espero muito que tenham gostado desta segunda entrevista e de terem lido algo totalmente diferente do tema anterior, a Filipa é uma querida e proporcionou-me um à vontade incrível. 
Não se esqueçam de comentar, partilhar com os vossos amigos(as) e não se esqueçam de visitar todas as redes sociais da Filipa que vão estar aqui em baixo. 


Filipa - (Blog) (Instagram) (Facebook

Mia Perry

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14 comentários

  1. Olá, tudo bem?
    Gosto muito de entrevistas no blog, já faz tempo que não faço e agora lendo a sua confesso que fiquei com vontade de publicar novamente. Sem falar que é ótimo poder conhecer melhor nossos colegas blogueiros. Amei as fotos, principalmente a dos gatinhos :3

    Beijos,
    Pri
    www.vintagepri.com.br


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  2. Caraca Design e Enfermagem são mesmo cursos muitos distintos né? Mas sempre dá certo com amor. Adorei a entrevista, amo conhecer pessoas e esse é um bom meio de saber mais sobre elas. PS: Amei as fotos das flores, bem tumblr vintage. Um beijo

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  3. Olá! Adoro ler entrevistas nos blogs, ainda mais de companheiras blogueiras. A Ana parece ser um amor de pessoa, me deu vontade de conhecer o blog dela, deve ser um amor!!!

    bjs

    Inajara

    www.vintageandgeek.com.br

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  4. Ai que bacana, coonfesso que não leio muitas entrevistas por blogs só revistas msm
    Maaaas é sempre bom ver novos meios de entrevistas né? Achei muito bacana a entrevista e bem diferente de revistas. AMEI

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  5. Duas profissões totalmente distintas, mas que a complementam né??!
    Fiquei chocada em saber das condições da área da saúde, nós usuários só criticamos achando que a culpa é deles, mas eles também sofrem.

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  6. anw que amor em entrevista, adoro ler, e conhecer mais um pouco sobre as pessoas, lendo as respostas mesmo sem nem conhecer já da pra ter ideia de como a pessoa é rs. as fotos são tão delicadas, continue trazendo mais entrevistas! sucesso para vcs.

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  7. Que legal fazer um post de entrevista, não vejo muitos por ai, mas acho muito bom para conhecer outras blogueira ou outras personalidades que são interessantes. Achei show essa entrevista e gostei de conhecer seu blog!
    Beijos

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  8. Posts de entrevista é bem interessante, conhecer um pouco mais da outra pessoa é adquirir conhecimentos. Agora de Design e enfermagem são bem diferentes kkk. Gostei do seu Blog, Beijos!

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  9. Acho super mara as blogueiras que se predispõem a fazer entrevista com outras pessoas seja no mesmo ramo ou não. O conhecimento sobre o próximo é altamente necessário, e vi bem isto nesta entrevista. Ah, a parte que eu sinceramente ri foi quando falaram sobre filhos, gente pensei que fosse sério.. rsrs. Um beijão..

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  10. Muito interessante o ponto de vista Ana. Penso que a profissão de medicina é uma dádiva em nossas vidas, e muitos desses profissionais não são valorizados como deviam. Lindas as fotografias, achei bem poética as das flores. Parabéns pela entrevista, bem completa!

    bjus
    Ari ♥
    De volta ao retrô

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  11. Mia que interessante essa entrevista, adorei! Muito legal o posicionamento de Ana, adorei as fotografias, a postagem em si, tudo muito organizado e lindo, meus parabéns, Beijos

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  12. Olá!
    Realmente, esta conversa não foi conversa e sim partilha. Adorei conhecer mais a Filipa e sobre a rotina dela. Ajudar em um hospital é muito difícil e tomara que ela consiga fazer o curso de enfermagem!

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  13. Acho muito bacana posts de entrevista!
    Dá pra conhecer bem a pessoa! Suas perguntas foram ótimas!
    Parabéns pelo post!

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  14. Acho interessante esse tipo de post, eu fazia muito antigamente, mas nunca vi uma entrevista tão boa e completa igual a sua. Parabéns adorei o post, bjs!

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